14 de agosto de 2008

Supercordas: Seres Verdes ao Redor

Seres Verdes ao Redor (música para samambaias, animais rastejantes e anfíbios marcianos)
(Trombador Discos, 2006)

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Comentários das faixas escritos em 2006:

1. E o sol brilhou sobre o verde
Surgiu de um violão do Valentino, ganhou uma camada de vozes e se tornou a introdução inconteste de uma velha idéia do que viria a ser Seres verdes ao redor.
O título ensolarado acabou pedindo os pássaros ao contrário, theremins e a viola de 10 cordas. Breve como o espaço de tempo entre a madrugada e a manhã.

2. A charneca
Uma peça infantil para a qual eu escrevi os primeiros rabiscos na língua-pátria. Sem a descoberta d'Os Mutantes talvez nunca os tivesse escrito desta forma. Foi resgatada para Seres verdes ao redor de um velho disco dos Psilocybian Devils, ganhou um arranjo mais pomposo e esquisito. Fala de como a charneca (ou brejo, como preferirem) cheira a rãs mortas no verão muito quente e muito úmido. "No varal meu eu astral nunca vai secar" traz a idéia de um astral úmido que agora me agrada bastante.

3. Ruradélica
Escrita especificamente para o disco como provável single. Os primeiros versos me vieram à cabeça como um hai-kai ou uma velha canção do Lô Borges, e daí foi construída como uma espécie de iê-iê-iê rural naive e arcadista em seu conteúdo. Celebração platônica da roça como ambiente de vida; naive e unilateral porque não leva em conta réplicas mentais simples como o tédio rural profundo e as vantagens tecnocráticas da cidade grande.

4. 3.000 folhas
Uma das três canções mais recentes do disco. Refere-se a um ambiente específico na subida da estrada de Cunha. O refrão faz referência à velha lenda do País da Cocanha, seus rios de leite e chuvas de mel, e à aparente apatia poética diante da exuberância da natureza.
“Eu só flutuo ao som de uma fuga rasteira” – eu perguntei ao Giraknob esses dias se ele sabia o que era uma fuga e ele disse que era uma melodia que a todo tempo sugeria uma modulação, mas nunca a concretizava. Engraçado como alguns termos são empregados aleatoriamente e depois vêm a ter um sentido tão preciso. “Lilases pétalas de céu pra mim é coisa de drogado” – disse o Giraknob.
Gostei de como ela soa agora como um pop gorkyano esquisito com suas mridangas indianas e cravos barrocos. Parece ser a parte do disco que sugere que “o buraco é mais embaixo”...

5. Mofo
...parte esta que exige um pequeno respiro incidental. Gravamos um canal principal com viola de 10 cordas e violão e daí sobrepusemos improvisações de outros instrumentos. A música é uma versão simplificada e quase instrumental de uma canção do Valentino - da qual gosto muito -chamada “Love is the power”. O sombiente sugere uma ‘jam’ de beira de estrada e faz emergir a parte mais úmida (ainda) do disco.

6. Sobre o frio
Uma suíte supercordiana que fala de como a tristeza e a apatia podem ser confortáveis, principalmente no inverno. Termina com uma frase rock-arena à velha maneira dos Wings. Uma das faixas mais importantes do álbum. Eu diria que é o centro, e dela o disco se estica até seus extremos.

7. Ricochete
Uma peça dedilhada para violão que acabou ganhando esses versos meio que em forma de hai-kai e tudo o mais que a transformou num “chachado psicodélico” e num ponto alto do disco para mim. Adicionamos vozes praianas da minha mãe à introdução, assim como serrotes martelados, guitarras ao contrário, diversos canais de percussão e de ruídos ‘aquáticos’ do Gira. Tem uma viola de 10 cordas que só toca o último acorde da música, mas que sempre martelou a minha cabeça como uma voz que diz “faças assim e terás um momento White Álbum em teu disco”.

8. Musgo
O momento mais experimental do álbum, e um dos meus favoritos. Fizemos uma colagem manipulando diversas velhas gravações magnéticas, sopros atonais do Pedro e do Artur (os únicos participantes externos humanos aqui, além da minha mãe), novas guitarras do Gira e mais uma ‘jam’ de beira de estrada com viola e violão. O final com sapos do Parque Verde e um gambá andando no forro serve de introdução para Frog-rock.

9. Frog-Rock
Outra das canções mais antigas resgatadas pra Seres verdes ao redor. Um número de comédia cantado em ‘caipirês’, mas um dos mais potencialmente radiofônicos. Fazia sucesso entre os meus primos pequeninos. A recepção infantil das canções sempre me agradou mais até que a adulta. A nova linha sobre o “sapo mandarim alquimista espacial” faz referência ao disco de onde foi resgatada, Sapos alquímicos na era espacial.

10. Sobre o calor
Provavelmente a faixa que mais destoa do clima predominante do álbum. Um épico de dedilhados celtas, guitarras marítimas e versos surreais e urbanos. Fala justamente sobre o calor, de maneira um tanto abstrata, associando a alta temperatura tanto a uma certa letargia quanto à necessidade de se criar alguma coisa que mantenha a alma sólida dentro do forno, nem que seja pra trazer a imagem de geleiras e montanhas de neve.

11. Mangue
A minha favorita de todas no momento, por ser talvez a mais esquisita. O tema que abre esta terceira faixa experimental de Seres verdes ao redor foi também tirado de uma velha canção dos Psilocybian Devils, mas desta vez diretamente da fita em que foi gravada a original. Numa segunda parte mais caótica aparecem novamente os efeitos de fita de “Musgo”, junto com os sopros atonais e um pastiche magnético de “Ruradélica”. Termina de forma a abrir espaço para o gran-finale.

12. Fotossíntese
Nossa primeira gravação a estrelar contribuições vocais de todos os Supercordas. Assim como “E o sol brilhou sobre o verde” é a introdução inconteste do disco, esta é sua eterna conclusão. Celebração final dos seres verdes clorofilados de fato e dos que existem dentro de cada um de nós, bípedes estranhos. Como num velho disco dos anos 60, esta apoteose final faz referência aos temas anteriores do disco e a todo esse caminho autobiográfico através da nossa própria Ruraldelia.
Eu não queria que os seres verdes deste disco acabassem soando como figurantes de uma floresta conífera fria de Massachussets (sic?) ou coisa parecida (o que seria tão fácil e irrelevante), e os versos de “Fotossíntese” escancaram o clima quente, úmido e lamacento da costa caiçara que de fato o álbum procura trazer à mente de quem o escuta.

Estes foram meus rabiscos sobre Seres verdes ao redor: música para samambaias, animais rastejantes e anfíbios marcianos, nosso primeiro disco de verdade como a banda que agora somos. Espero que todos gostem, e que fiquem com vontade de cheirar grama molhada depois de ouvi-lo. Obviamente por ser um primeiro disco em múltiplos aspectos, é apenas um começo. E, se há uma coisa que não faz muito sentido esperar dos Supercordas, é mais do mesmo.
Rayos de Ruraldelia!

O Bonifrate

2 comentários:

teclas pretas disse...

vish! gosto pacas desse disco! imagino o q vem por aí. abraço,

GLAUBEROVSKY

Anônimo disse...

cara que cd bom!
que temática boa vocês criaram!
Parabéns!
Moro no sul do Pará!
Conheci vocês através da Mtv!
canção sobre o calor e a melhor!
Artur Miranda