8 de abril de 2009

Digital Ameríndio, mas qual?

Digital Ameríndio, mas qual?

1. Introdução
2. Uirapuru
3. Fora de si
4. Não tem trumpete
5. Lombroso
6. Tempo liso
7. 87 dias numa quarta
8. American Big Foot Mouse Mouse Joe
9. The last time

digitalamerindio@gmail.com
www.myspace.com/digitalamerindio

É com grande palpitância que voltamos ao ar (ou terra) depois de meses meio desativados, e liberando neste volume o último disco do Digital Ameríndio (ou bardo) e ainda por cima com uma brilhante entrevista concedida pelo bardo-ele-mesmo.

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http://www.mediafire.com/file/nuimehwho4y/digital amerndio - , mas qual (2008).rar

Entrevista

Bonifrate
- Bardo, deste quando tens o pé em toda essa psicadelia? Poderias proferir algumas vãs palavras sobre a origem do Universo, recriada talvez por experimentos magnéticos rústicos ou por socializações primárias inusitadas, porém concretas, do mundo udigrudi?
Digital Amedíndio - Sim, eu estou pensando (BARRETT, 1970). Acho que uma das últimas experiências de róque que tive foi por volta do século XVI, na Basílica de São Marcos, em Veneza (pois, assim como o pequeno Nietzsche, eu também queria ser tipo um punk-pastor protestante nessa época), com aquele lance do Giovanni Gabrieli, de colocar em cada salão um grupo diferente e todos tocando ao mesmo tempo. Mas, primeiro, o Walter Franco me falou que isso tinha sido feito muito antes pelo Stockhausen, imitando o Ornette Coleman, que por sua vez copiava o Pavement que, como bom rapte-me cameloa que era, andou plagiando a Orquestra Tonguemische ("que influenciou toda essa galera", segundo o Caetano, ou não). Eu planejei pra que tudo isso começasse daqui a duas semanas, mas acho que ainda faltam uns treze ou catorze (ou quatorze?) dias, maus ou menos, pra Mouse on Mars. Ou antes, aquele bando desalmado do Hammas, Farkas e OLP tem que ser zoado ("de uma maneira escrota", terceiro o Pancita).

B.
- Quando te conheci, tocavas uma guitarra de brinquedo plugada num pedal Heavy Metal da Boss (se não me falha a memória) num concerto do Lava-Jato. Daí até o Primeiro Festival da Canção Trovadélica de 2008, em São Paulo, é possível tentar estabelecer alguma sorte de linearidade? A noção de um crescendo que leva ao clímax deve ser completamente descartada em função de uma distribuição aleatória ou mesmo (livre)arbitrária de pontos coloridos no espaço-tempo?
D.A. - Bardo, essa eu preciso te contar, saca só: joguei no DeLorean a casca de banana que eu pisei e numa dobra espaço-temporal sem qualquer existência conferi que se tratava, de fato, de um pedal DOD Super American Metal. Isso é importante, porque esse lance de Digital Ameríndio, como sempre, veio só depois. Ou antes, o "ameríndio" veio depois do "digital" como um destino, um amor fati. Ou antes, um eterno retorno às pressas do recalcado em si próprio sem dó, ou linguagem que o designe.

B.
- Em 1999, terminavas de gravar o álbum A incomensurável piração psicodélica, degenerativa, transgênica e generalizada, do bizarro mundo mágico de Orleans e Braguilhas, até onde eu sei, inteiramente gravado num porta-estúdio de quatro canais. O aparelho acabou dando defeito, como de costume? Sentes saudades como eu sinto? Sei que há alguma diferença entre o velho procedimento magnético de gravação e o processo digital do disco, mas qual?
D.A. - Qual o quê?! O disco? Mas a "incomensurável doideira de pedra" (BONIFRATE, 2009) levou à morte dois quatro canais: um Yamaha (com esse fiquei só uma semana e depois troquei) e dois Fostex: o modernoso XR3 e, o melhor de todos, o antológico Fostex X15, que ficou conhecido nas internas, nas externas e na superfície que conecta o dentro e o fora como "Zé Pretinho". Passei tantos anos afoito por um portaestúdio e sem um p%&$uto no bolso que, quando consegui as pilas, meus dedos pareciam tensos e pesados, destruindo, uma a uma, as teclas daquelas maravilhosas maquininhas. Por conta de toda essa excessiva falta de ductilidade fui levado a mixar as experimentações às pressas (essa Odisséia, desde a aquisição do primeiro portastúdio até a mixagem, pra salvar os restos do terceiro, durou uma semana de 1999 e 50 gramas de adubo).
Mas qual não foi minha surpresa ao me deparar com um computador, alguns anos depois... Passei pra CDr as paradas de 1999 e batizei ("A I. P. P., D., T. e G., do B. M. M. de O. e B."), além de produzir um EP muito tarde (que gravei em 2007, mas só publiquei, na Tramavirtual, em 2008). E esse lance, aconteceu entre uma coisa e outra, mas qual? O lance do nome Digital Ameríndio, que pra mim é tipo os nomes dos caras do Gong. Como o processo é infinito, há lance novo em curso, mas qual? foi o último álbum mas não será o último álbum, se Zeus quiser... Ou antes esse lance de "bardo" que, ao contrário dos trovadores (que tocavam para a aristocracia), atualizavam um protesto implícito contra os signos mundanos, ao tocarem para (e com) o povo.

B.
"A grande inimiga da Renascença, do ponto de vista filosófico e científico, foi a síntese aristotélica, e pode dizer-se que sua grande obra foi a destruição dessa síntese.” (KOYRÉ, Alexandre, 1982).
Considerando a máxima de Alexandre Koyré, um tanto demodé, mas positivamente blasé, me explique como tu achas que um pós-modernismo esdrúxulo, sem a mínima unidade de pensamento, pleno de artistas que expõem paredes descascadas e vasos sanitários ornados como altares para Barbara Straissand (sick) pode mesmo começar a sonhar com a destruição de uma síntese cartesiano-galilaica-prometéicadesacorrentada-prozaquiana, mais beligerante que o divórcio escroto da Susana Vieira (que não pôde votar em Barrack Obama),
mais inusitada que uma analogia entre a Faixa de Gaza e o Haight Ashbury, e mais zoada que o Metrô Santana (PANCITA, Rica, 1947)?
D.A. - A esse respeito, obviamente, há somente quatro (ou, no máximo, dois) fatores inegáveis, que se distinguem mas não se separam:
  1. Não há destino; somos nós que fazemos (CONNOR, Sarah. Em: O exterminador do futuro 2)
  2. Nós, não podemos mudar o destino (CONNOR, John. Em: O exterminador do futuro 3)
  3. Nós não são laços e os laços não são dobras espaço-temporais; de onde deriva um segundo paradoxo: noz não é cérebro, mas é também (AMERINDIO, 1966); o que "também" nos leva de volta à questão do "antes de nada eu gostaria de falar..." (MAÇÃ, 2020).
Para tanto é necessário que o "anterior" e o "posterior" se expressem apenas como vetores de articulação diferencial entre séries heterogêneas de significantes singulares (basta lembrar dos exemplos: "respiro enquanto durmo" e "durmo enquanto respiro", que só designam um mesmo estado de coisas quando manifestos pelo Caxinguelê de Carroll [2002], embora o sentido singular do acontecimento se ramifique em séries divergentes). Neste caso, como diria Borges (1972), "asseguram os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa exceção" (p. 92). De onde nada resta, senão concluirmos que a palavra ritmo deriva do grego rythmos - que significa fluidez - e que a palavra arithmos (de onde deriva a aritmética) indica, na física de Aristóteles, a estrutura numérica do movimento. Ou antes, parafraseando Girafalles (s.n.t.), neologistica e redundantemente, a aritmétrica...
"Chega!" (VELOSO, C., 1968).

3 comentários:

Katia Abreu disse...

faço votos de que este blog seja atualizado com mais frequencia e, preferencialmente, sempre com entrevistas geniais como esta postadas junto dos links para download das obras completas dos maiores gênios da minha geração - e, não por acaso, meus melhores amigos e camaradas. =)

débora disse...

yessss

Estanislau Molina disse...

é mister que se destaque da totalidade alguns recortes, sem os quais não seria possível que chamássemos de real aquilo que do tênue se transmuta em acontecimento acontecente. o que, vocês certamente já notaram, nos remete à 'simbiose entre o não e o quase-não' (CROUTON, P. em 'Uma Outra Espécie de Macaco Depilado: Um Ensaio de Antropologia Misantrópica')